segunda-feira, 13 de outubro de 2014

professora tatuada

Apesar de nunca ter me sujeitado a preconceitos com as tatuagens e piercings, e ter passado bastante tempo da carreira indo trabalhar com um plástico em volta da tatuagem nova,  ou fazendo retoque no intervalo das aulas, vejo muito uma curiosidade negativa, como se eu, que sou a adulta da sala, não tivesse pensado muito no assunto. Luana Limas, professora de Língua Inglesa, professora tatuada. Na foto, a tattoo linda da Luana, com o gato Napoleão, o Naps. 


Mulher tatuada já incomoda muita gente. Uma professora tatuada, então, só pode ser totalmente insana! E se ela tem tatuagens e piercing, no rosto, a desconfiança sobre sua seriedade e profissionalismo tende a aumentar quando se trata de trabalhar em escolas mais tradicionais, mais conservadoras. Mas calma! Depende da tatuagem, néééaaannn.

Se for uma borboletinha ou uma estrelinha aí pode, porque é supermeigo e remonta uma adolescência que já foi curada, mas deixou uma marquinha com a qual nós, cidadãos de bem podemos lidar... Porque tatuagem em mulher precisa ser meiga, meiga como uma mulher meiga. Afinal, professora é feito mãe: sendo meiga, ela cuida, dá colo, dá mimo, é carinhosa, trabalhadora atenta, sensível e teme perder seu rico emprego. Certo?


Quem quer uma mulher tatuada e transgressora dando aula pros seus filhos? Quem quer uma professora de língua ou de literatura que desafia a linguagem do próprio corpo, desconstruindo regras sem sentido há centenas de anos estabilizadas? Quem aí prefere uma figura forte, que já matou a normalista de saia plissada na cabeça há muito tempo, mostrando que ser professora é, por essência, ser uma perguntadora?


Luana Ogliari é formada em Filosofia e Mestre em Literatura. É professora tatuada, de Literatura, para o Ensino Médio. 

Com o calor chegando, as tattoos das professoras começam a aparecer, e o mais interessante de tudo é ver as reações dos alunos e de outros professores sobre esse fato corporal.

Sora, quantas tatuagens tu tem? Por que tu fez tatuagens? O que elas significam? Dói muito fazer tatuagem? Eu queria fazer uma, mas minha mãe não deixa. Ai, que linda essa tua tatuagem! Nunca tinha visto. Tu tem várias, né? Adoro o teu estilo, assim, tão diferente. Esse pessoal da Letras têm umas ideias legais de tatuagem.


"Uma colega de trabalho perguntou se minha tatuagem era de verdade. Achei engraçado, não consigo me imaginar fazendo um carimbo no braço pra ir pra escola, não aos 26 anos. Além dessa, seguidamente escuto de outra colega sobre o quanto meu piercing do nariz deixa ela irritada – me dá vontade de arrancar isso de ti!" Raquel Leão, Doutoranda em Educação, professora tatuada.


Tu tem uma tatuagem na coxa? Ui, que sexy!
Ananda é  Mestre em Ética, Alteridade e Linguagem na Educação. Grande professora tatuada de Produção Textual, desconstrói preconceitos e estereótipos, também pelas imagens que faz de si mesma com seus alunos. 


Surgem também os medos:
Hoje tem reunião com os pais, será que devo esconder as tatuagens? Queria fazer uma tatuagem no pescoço, será que vou ser demitida? Falo sobre as tatuagens com os alunos ou escondo?

Qualquer professora tatuada passa por isso. Aquelas que trabalham em escolas privadas, elitistas e conservadoras principalmente. Vivemos com medo da nossa imagem, sabemos que ter tatuagem pode não ser encarado da melhor forma possível.

"Uma vez fui contratada para um emprego de professora porque a moça gostou das minhas tatuagens de passarinhos, mas uma menina infinitamente mais qualificada, na época, foi alvo de chacota, pois tinha uma caveira; passarinho pode, caveira não." Luana Limas.

Ter tatuagens significa ser interrompida por interjeições de espanto dos alunos, aguentar comentários e piadinhas dos outros professores, olhares maldosos daquela professora já bem velhinha que adora ensinar a diferença entre substantivo concreto e abstrato. Ou então alguém que tri se identificou contigo dizendo: Amei as tuas tatuagens, queria fazer uma, mas não tenho coragem.


Surian Seidl, Mestre em Literaturas Africanas, professora de Português do Ensino Fundamental, professora tatuada. 


Camila Dilli, Mestre em Linguística Aplicada, professora de Português como Língua Adicional, professora tatuada. 


Em alguns mundinhos, ter tatuagem é bastante comum, não é mais visto como sinônimo de rebeldia. Mas não dentro das escolas (pelo menos as que conhecemos). Ser uma professora tatuada cria curiosidade nos alunos, eles querem tocar, perguntar, ver, falar sobre, tirar todas as dúvidas. Eles gostam, mas acham estranho. Eles reproduzem os discursos dos pais, ou reclamam que os pais não deixam que eles façam tatuagem. A professora tatuada é diferente. Vai contra o que se escuta em casa e na TV.


 
 
Comecei a me tatuar com 16 aninhos, a das costas foi minha primeira e tive que refazê-la quando ela fez 10 aninhos, gosto muito de procurar equilíbrio na vida, ela representa isso, minha mandala com o om representa eterna busca por equilíbrio. A outra, no braço, é a união de duas coisas que amo muito e que estão relacionadas ao meu trabalho: contação de história e os povos indígenas. A língua é Kaingang e a frase quer dizer: "nós contamos histórias". Bruna Morelo, Mestre em Linguística Aplicada, tem oito tatuagens.


Nossa homenagem ao dia das Professoras Tatuadas

15 comentários:

  1. Parabéns pela iniciativa. Muito legal!

    Ítalo Ogliari

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  2. Lindo texto!
    Já me perguntei: "devo ir à reunião de pais mostrando a tatuagem?".

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  3. Gente, que perfeito. Não conhecia o blog, vi meu prof compartilhar e cliquei, li e simplesmente amei. <3

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  4. então...claro, objetivo....faz pensar...parabéns gurias <3

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  5. Muito obrigada a todos pelos comentários!

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  6. A leitura de vocês nos enche de felicidade!
    Abraços!
    Raquel

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  7. Olá,adorei o blog e o texto tbm! Passo por situações parecidas, sou estudante de pedagogia e sofro preconceito por ter tatuagens inclusive das minhas próprias colegas de classe,mas isso só me faz seguir em frente e me dedicar cada vez mais a minha profissão.

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  8. Olá... infelizmente estou passando por situações parecidas. A diretora da minha escola está implicando comigo por conta de um piercing na orelha. Apenas um... nem é tão grande... Mesmo que fosse... Não cabe a ela me julgar pelas artes corporais...

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  9. Adorei gurias! Tô com vcs, sou profe tatuada das pequeninhas, mas amoooo as grandonas. Ainda vou ter uma! Ah, e um piercing Tb! E não vou esconder, viu Raquel leão? Não precisa, guria! Bjocas

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  10. Eu apenas me matriculei no curso de pedagogia, e já choveu preconceito de tds os lados :/
    Tenho 8 tattoos, até ler esse texto estava preocupada cm a opinião alheia.
    Agr tbm faço parte desse grupo! ☺❤
    Obrigada por compartilhar essas experiências!

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  11. Encontrei o blog porque estou justamente pesquisando se é aceitável professor tatuado.Ja tenho tatuagens,em lugares que se pode "esconder",mas estou a beira de fazer uma no antebraço.Vou começar o curso de pedagogia e fiquei com dúvida.Mas quem tem piercing e tatuagens sabe o que é preconceito até mesmo dentro de casa(minha mãe abomina e não respeita).
    Mas, diante de lindos relatos resolvi que vou sim fazer a tatoo.Somos nós que devemos mudar o pensamento de preconceito.E só vamos mudar quando deixarmos de nos esconder.Beijo!

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  12. Genteeee, amei ler esse texto, e ja passei por um monte de situações desagradáveis, inclusive no curso de pedagogia uma professora me colocou como exemplo, de que pra tal profissão não poderíamos deixar a mostra, principalmente pelo que iríamos passar de negativo. Enfim, na época tirei minhas próprias conclusões,de como posso ensinar que devemos respeitar a diversidade e aceitar cada um como é, sendo que eu mesma não me aceito... Enfim, sou toda tatuada e me amo, as que aparecem são pequenas, mas vou continuar me amando e vou continuar com meus desenhos... Muito bom encontrar pessoas parecidas

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